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Creatina faz cair o cabelo? O que a ciência já sabe, e o que ainda não sabe

A creatina saiu das academias e chegou à rotina de muita gente, inclusive de mulheres e de pessoas mais velhas, que a usam para ganhar massa muscular, desempenho e recuperação1. O próprio corpo a produz, e ela também vem da alimentação, principalmente das carnes; não é um esteroide anabolizante1. Com a popularidade veio uma suspeita que circula em fóruns, vídeos e consultórios: "creatina faz o cabelo cair".

Dra. Natália Palma CRM-SP 201876 6 min de leitura

Colagem em preto, azul e creme: uma pessoa cochicha no ouvido de uma mulher, que escuta desconfiada, e uma mão segura um pote de suplemento sem rótulo

A dúvida também foi tema de uma reportagem da GQ americana, publicada em agosto de 2026. Para responder à pergunta, porém, é preciso separar o que se observou nos hormônios do que foi realmente medido nos cabelos.

Até hoje, não há comprovação de que a creatina cause queda de cabelo. A suspeita nasceu de um estudo de 2009 que mediu hormônios, mas não examinou os cabelos. Em 2025, um ensaio que examinou os fios não detectou piora com a creatina nas condições avaliadas. O resultado é tranquilizador, mas não responde a todas as situações de uso.

De onde veio a suspeita

Em 2009, pesquisadores sul-africanos deram creatina a jovens jogadores de rúgbi, de 18 e 19 anos, por três semanas2. O protocolo começou com uma fase de carga de 25 g por dia durante uma semana, seguida de 5 g por dia. Cada atleta passou por um período com creatina e outro com placebo, separados por uma pausa.

A testosterona não mudou de forma significativa. Já o DHT (di-hidrotestosterona), um hormônio produzido a partir da testosterona, subiu 56% após a primeira semana e terminou 40% acima do início2.

O DHT importa porque participa da calvície comum, a alopecia androgenética. Em pessoas com predisposição genética, os hormônios masculinos fazem certos folículos do couro cabeludo encolherem aos poucos, até produzirem apenas fios finos3. Os autores de 2009 lembraram essa ligação e pediram mais estudos2. Foi o bastante para a suspeita ganhar a internet.

Mas o estudo mediu hormônios no sangue, não queda de cabelo. Os valores de DHT permaneceram dentro da faixa de referência citada por pesquisas posteriores4. Isso ajuda a contextualizar o aumento, mas não permite concluir o que aconteceu com os cabelos, que não foram avaliados.

O que mudou quando examinaram os fios

Em 2025, um ensaio clínico voltou a medir os hormônios e, pela primeira vez, examinou os cabelos4. Pesquisadores do Irã, do Canadá e dos Estados Unidos sortearam homens de 18 a 40 anos que já treinavam musculação. Parte deles tomou 5 g de creatina por dia, e a outra parte um pó sem efeito (placebo), por 12 semanas. Nem os participantes nem os avaliadores sabiam quem tomava o quê.

O estudo foi concluído por 38 homens, e 37 tinham dados disponíveis para a avaliação dos cabelos4. Além de dosar testosterona e DHT no sangue, dermatologistas fotografaram o topo da cabeça com equipamento de ampliação digital. Mediram número de fios, densidade, espessura e proporção de fios em crescimento e em repouso.

Não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos, nem nos hormônios, nem em qualquer medida dos cabelos4. Na comparação entre o início e o fim das 12 semanas, não foi detectado aumento de DHT associado à creatina. Segundo os autores, a diferença em relação a 2009 pode estar ligada ao método: o novo estudo não usou fase de carga e durou mais tempo4.

O que ainda falta saber

O ensaio de 2025 é pequeno e curto, e os próprios autores apontam limites. Só participaram homens. O histórico familiar de calvície não foi registrado: isso não significa que ninguém tivesse predisposição, mas que essa condição não foi analisada. E o DHT foi medido apenas no sangue, não no couro cabeludo4. Essa lacuna limita o entendimento do mecanismo local, embora os fios tenham sido avaliados diretamente. Os resultados também não se aplicam automaticamente a pessoas mais velhas, a usos mais longos ou a doses maiores.

Há ainda a questão da independência. O artigo saiu na revista da Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva (ISSN), entidade que, segundo a declaração dos autores, pode ser patrocinada por empresas que fabricam e vendem suplementos. Um dos autores é diretor-executivo da ISSN, e outros prestam consultoria a marcas de creatina. O artigo declara não ter recebido financiamento específico e agradece o apoio do representante oficial da marca cuja creatina foi usada, sem detalhar em que ele consistiu4. A revisão de 2021 utilizada nesta reportagem foi publicada na mesma revista, por pesquisadores com vínculos semelhantes1.

Declarar vínculos é uma exigência das revistas científicas, e os vínculos não indicam, por si só, que o resultado esteja errado. O ponto é outro: até o fechamento desta reportagem, não localizamos uma repetição do ensaio por um grupo sem essas ligações.

A American Hair Loss Association, associação americana dedicada à queda de cabelo, publicou um comentário que critica a duração curta, o número pequeno de participantes e a ausência de medida do DHT no couro cabeludo5. É uma análise institucional, não um novo estudo, mas levanta perguntas que pesquisas futuras precisam responder.

Percebi queda: e agora?

A queda percebida pode ser real. O que a sequência dos acontecimentos não demonstra, sozinha, é a causa. Começar a creatina e notar queda na mesma época não prova que uma coisa levou à outra, porque a calvície comum e outras formas de queda podem surgir por conta própria.

Quem percebe queda, afinamento ou entradas deve procurar avaliação médica, em vez de apenas suspender o suplemento ou culpá-lo. Na consulta, vale informar todos os suplementos, medicamentos e outras substâncias em uso, para que a investigação considere todas as possibilidades.

Em resumo, os dados disponíveis não justificam apresentar a creatina como causa comprovada de queda de cabelo. Também não autorizam transformar um resultado tranquilizador em garantia para qualquer pessoa e qualquer duração de uso. Faltam estudos mais longos, independentes e que incluam mulheres e pessoas com predisposição.

Quadro

Os dois estudos

2009 (van der Merwe e colaboradores): cabelos não avaliados. Mediu apenas hormônios no sangue de 20 jogadores de rúgbi de 18 e 19 anos (o artigo relata 4 desistências), com 25 g/dia por 7 dias e 5 g/dia por 14 dias. O DHT no período com creatina foi de 0,98 nmol/L no início para 1,53 após 7 dias e 1,38 após 21 dias2. A faixa de referência citada para homens de 18 a 59 anos é de 0,8 a 3,5 nmol/L4.

2025 (Lak e colaboradores): cabelos avaliados por dermatologistas. Foram 45 recrutados, 38 concluíram e 37 tiveram avaliação capilar, com 5 g/dia por 12 semanas. Não foram detectadas diferenças estatisticamente significativas entre creatina e placebo nas alterações hormonais ou nas medidas capilares4.

Referências

  1. Antonio J, Candow DG, Forbes SC, et al. Common questions and misconceptions about creatine supplementation: what does the scientific evidence really show? J Int Soc Sports Nutr. 2021;18(1):13. doi:10.1186/s12970-021-00412-w
  2. van der Merwe J, Brooks NE, Myburgh KH. Three weeks of creatine monohydrate supplementation affects dihydrotestosterone to testosterone ratio in college-aged rugby players. Clin J Sport Med. 2009;19(5):399-404. doi:10.1097/JSM.0b013e3181b8b52f
  3. Lolli F, Pallotti F, Rossi A, et al. Androgenetic alopecia: a review. Endocrine. 2017;57(1):9-17. doi:10.1007/s12020-017-1280-y
  4. Lak M, Forbes SC, Ashtary-Larky D, et al. Does creatine cause hair loss? A 12-week randomized controlled trial. J Int Soc Sports Nutr. 2025;22(sup1):2495229. doi:10.1080/15502783.2025.2495229
  5. American Hair Loss Association. Creatine and hair loss: what the latest study got right, and what it missed. [Internet]. Disponível em: https://www.americanhairloss.org/creatine-and-hair-loss-what-the-latest-study-got-right-and-what-it-missed/. Acesso em: 29 set. 2026.

Fonte jornalística complementar

Conteúdo sob responsabilidade da Dra. Natália Palma, CRM-SP 201876.

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